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vinny neves
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ensinar é o ato mais egoísta de generosidade que existe

5 min de leitura
ilustração no estilo jujutsu kaisen de um dev careca de óculos e barba segurando uma caneta com relâmpagos roxos ao fundo, um shih tzu ao seu lado, cercado por painéis flutuantes de aulas de algoritmos e textos sobre complexidade, com texto japonês '知識は呪いであり、救いでもある' à direita

me chamaram novamente pra ministrar uma disciplina no mba da usp. e toda vez que algo assim acontece eu entro num modo estranho de introspecção onde eu fico tentando reconstruir o caminho que me trouxe até aqui.

não é falsa modéstia. é genuinamente bizarro.

porque eu consigo apontar com precisão cirúrgica o momento em que tudo começou a mudar: quando eu parei de só consumir conteúdo e comecei a produzir.

a melhor forma de aprender é ter que ensinar

em 2016, 2017, eu dava aulas presenciais de programação. php, javascript, html, css. o motivo era simples e nada romântico: eu precisava de grana extra.

não tinha manifesto. não tinha missão. tinha boleto.

mas aconteceu uma coisa que eu não esperava. pra conseguir dar uma aula de 3 horas sobre qualquer assunto, eu precisava estudar o triplo. precisava entender a fundo, porque sempre tem alguém na sala que vai perguntar algo que você não previu. e se você não sabe a resposta, tudo bem — mas se você não sabe nem por onde começar a buscar, o problema é maior.

e foi aí que eu percebi: eu nunca tinha aprendido tão rápido na vida.

cada aula que eu preparava me obrigava a descascar camadas que eu achava que já conhecia. cada artigo que eu escrevia me forçava a organizar pensamentos que até então eram só vibes na minha cabeça. cada palestra me empurrava a encontrar uma narrativa que fizesse sentido pra alguém que não mora dentro do meu cérebro.

você acha que tá dando, mas na real tá recebendo mais do que qualquer aluno na sala.

o dia que me disseram que eu não era capaz

em meados de 2019 eu trabalhava numa empresa que tinha um frontend legado em angular.js. eu propus uma migração pra vue.js. e ouvi, com todas as letras, que eu não tinha capacidade de sustentar essa migração.

sabe o que eu fiz? gravei um curso inteiro de vue.js pra alura.

não foi vingança. ok, talvez um pouquinho. mas foi mais sobre provar pra mim mesmo que eu entendia aquilo profundamente o suficiente pra ensinar outras pessoas. porque se você consegue ensinar, você sabe. se você não consegue explicar, talvez você só tenha decorado.

e nunca mais parei.

isso não é sobre gerar conteúdo

preciso fazer uma pausa aqui pra deixar uma coisa explícita, porque o zeitgeist atual confunde tudo.

zeitgeist: palavra alemã que significa “espírito do tempo”, usada pra descrever o clima intelectual e cultural de uma época. e sim, essa é a primeira vez que eu uso essa palavra num texto. estou emocionado. obrigado por presenciarem esse momento.

eu não estou falando sobre abrir o chat da sua ia favorita e pedir pra gerar um artigo pra postar no linkedin e “movimentar sua rede”. isso é outra coisa. isso é marketing. tem seu valor, mas não é sobre isso que eu tô falando.

eu tô falando sobre o processo. sobre parar. pesquisar. ler três artigos e discordar de dois. escrever um parágrafo, apagar, reescrever. perceber que você não entende algo tão bem quanto pensava. ir atrás. voltar. montar uma narrativa que faça sentido.

o valor não está no artigo publicado. o valor está no que aconteceu na sua cabeça entre a ideia e o ponto final.

quando você escreve pra ensinar alguém, você é forçado a confrontar os buracos do seu próprio conhecimento. e aí você tem duas opções: tapar os buracos ou fingir que eles não existem. publicar é se comprometer com a primeira opção.

a arqueologia dos meus próprios textos

eu consigo voltar no tempo e encontrar meus primeiros textos. meu primeiro artigo na alura sobre testes unitários no vue. meu primeiro post no medium sobre react.

e é uma experiência única reler essas coisas. a estrutura era diferente. o tom era diferente. as analogias eram piores — ou melhores, depende do critério. o ponto é: eu mudei. minha narrativa mudou. minha forma de explicar evoluiu.

e isso só aconteceu porque eu coloquei texto no mundo repetidamente, durante anos, aceitando que cada publicação era um snapshot imperfeito do meu entendimento naquele momento.

se eu tivesse esperado até “estar pronto”, eu não teria começado até hoje.

o convite

então aqui vai meu desafio, e eu tô falando sério: escreve alguma coisa.

não precisa ser longo. não precisa ser genial. não precisa ter seo otimizado, thumbnail bonita e headline provocativa. precisa ser seu.

escolha algo que você acha que sabe. tente explicar pra alguém que não sabe. e observe o que acontece no processo. observe os momentos em que você trava e pensa “peraí, eu realmente entendo isso?” — esses são os momentos mais valiosos.

publique no medium, no dev.to, no seu blog pessoal, num google docs compartilhado, não importa a ferramenta. o que vale é meter a cara e fazer.

e se você publicar e me marcar nas redes sociais dizendo que escreveu porque esse texto aqui te impactou de alguma forma, eu vou ler. e vou te dar meu feedback.

não é promessa vazia. é compromisso de quem sabe que o caminho até uma aula na usp começou com um boleto extra pra pagar e um freela pra ensinar PHP.


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